Segundo Santos, Nóbrega, (2004) a existência de vários sistemas de classificação para descrever a prática de enfermagem levou o Conselho Internacional de Enfermeiros – CIE (International Council of Nursing – ICN), a partir de sugestão apresentada pela Organização Mundial de Saúde – OMS, à conclusão de que a enfermagem necessitava de um Sistema de Classificação Internacional, para sua prática, desenvolvido por um órgão internacional que representasse a enfermagem mundial. Essa classificação foi publicada, em 1996, como um marco unificador de todos os sistemas de classificação existentes na enfermagem, tendo sido denominada de Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem – CIPE – Versão Alfa, constituída pelas Classificações de Fenômenos e de Intervenções de Enfermagem.
Em 1999, foi publicada a CIPE – Versão Beta, numa abordagem multiaxial, constituída das Classificações de Fenômenos e de Ações de Enfermagem. Em janeiro de 2002, o CIE publicou e disponibilizou, em sua homepage, a CIPE® – Versão Beta 2, com correções de alguns termos e acréscimos de outros, solicitando, mais uma vez, todo o empenho dos enfermeiros do mundo em sua utilização e validação na prática clínica. Com a publicação da CIPE, o CIE espera que ela possa atender a seus principais critérios pré-estabelecidos, como o de poder ser suficientemente ampla e sensível à diversidade cultural, de modo que sirva para os múltiplos fins e propósitos requeridos pelos distintos países onde poderá ser utilizada.
Os objetivos da CIPE®, entre outros, são identificar um vocabulário especial e desenvolver um sistema de classificação dos componentes da prática de enfermagem (fenômenos, ações e resultados), de modo a sistematizar uma linguagem específica que descreva essa prática. O uso dessa linguagem específica não significa a normalização da assistência de enfermagem, pois o paciente é único e sua assistência deve ser individualizada, mas é necessário que o enfermeiro tenha conhecimento dos tipos de ação que pode utilizar, quando estiver atendendo sua clientela.
A CIPE® foi iniciada a partir da reunião de todos os sistemas de classificação de enfermagem existentes, mas, não incorporava termos relacionados com a atenção primária nem com a prática de enfermagem em serviços comunitários de saúde, havendo, portanto, a necessidade de se identificar e incluir termos associados a esse campo da prática. Partindo dessa constatação, o CIE constituiu dois grupos de trabalho, com finalidades distintas: um para se dedicar a receber sugestões e aprimorar a arquitetura taxonômica da CIPE® e outro, cujos objetivos eram: elaborar e divulgar processos para identificação de termos que pudessem ser usados pelos enfermeiros de qualquer país, a fim de evidenciar a linguagem de enfermagem em cuidados primários e em serviços comunitários de saúde; identificar e garantir a incorporação desses termos na CIPE®; estabelecer mecanismos, no âmbito dos países participantes, que possibilitassem, após o término do projeto, a continuidade de contribuição para a CIPE®, com termos relacionados com cuidados primários e com serviços comunitários de saúde dos países envolvidos, na necessidade de se incluir dados relacionados com a prática de enfermagem, nos sistemas de informação em saúde.
A enfermagem brasileira participa desse projeto desde 1994, a partir da presença de cinco enfermeiras brasileiras, representando a Associação Brasileira de Enfermagem – ABEn, em Tlaxcala – México, numa reunião consultiva sobre a elaboração de instrumentos para facilitar a identificação dos elementos da prática de enfermagem, que apóie os sistemas comunitários e a atenção primária à saúde. O Brasil se fez representar, também, na reunião realizada em Los Angeles – Estados Unidos, em fevereiro de 1995, quando se discutiu uma proposta para o desenvolvimento de projetos nacionais no Brasil, Chile, Colômbia e México, países que integrariam o projeto internacional da classificação para a prática de enfermagem. A partir dos compromissos assumidos nessas duas reuniões, a ABEn realizou, durante o I Encontro Internacional de Enfermagem de Países de Língua Oficial Portuguesa, em Salvador – BA, em abril de 1995, uma reunião sobre a Classificação da Prática de Enfermagem, com a finalidade de se elaborar o protocolo para o projeto de investigação da Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem no Brasil.
Em novembro de 1995, o CIE recomendou a realização de uma reunião, no Brasil, coordenada pela Fundação W. K. Kellog – Fundação co-responsável pelo apoio financeiro ao projeto – contando com representantes dos países da América Latina, objetivando delinear o projeto de classificação para a prática de enfermagem, que seria desenvolvido nesses países.
Sob a orientação do CIE, e contando também com o auxílio financeiro da Fundação F. W. Kellog, a ABEn, através das Diretorias de Assuntos Profissionais e do Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem – CEPEn, elaborou e desenvolveu o projeto de Classificação Internacional das Práticas de Enfermagem em Saúde Coletiva – CIPESC, com a intenção de revelar a dimensão, a diversidade e a amplitude das práticas de enfermagem no contexto do Sistema Único de Saúde - SUS, visando a construção de um sistema de classificação da prática de enfermagem em saúde coletiva.
O Projeto CIPESC foi desenvolvido de 1996 a 2000, com o objetivo geral de contribuir para a transformação das práticas de enfermagem em saúde coletiva no Brasil, tendo como referência os pressupostos da reforma sanitária brasileira, os perfis de saúde-doença da população e a inscrição constitutiva da Enfermagem no processo de produção em saúde.
Os propósitos centrais do projeto foram: estabelecer mecanismos de cooperação para a classificação da prática de enfermagem em saúde coletiva no país; revisitar as práticas de enfermagem em saúde coletiva no país, contextualizada no processo de produção em saúde; construir um sistema de informações da prática de enfermagem em saúde coletiva que permita sua classificação, troca de experiências e interlocução em nível nacional e internacional.
Em síntese, o Projeto CIPESC trata de três questões centrais: investigação sobre a prática da enfermagem; reflexão sobre o trabalho, do ponto de vista dos partícipes; construção de um sistema de informações que permita dar visibilidade às ações da enfermagem no âmbito nacional e internacional. Na sua execução, considerou-se a dimensão continental do país, sua diversidade sócio-econômica e cultural e seu acesso geográfico, definindo- se 15 cenários de pesquisa, representantes de todas as regiões do país, para a operacionalização das atividades, que foram desenvolvidas em duas etapas. Na primeira, foram coletados dados para a caracterização dos cenários e da força de trabalho de enfermagem, que foram submetidos à análise estatística.
Na segunda etapa, foram coletados dados acerca das práticas dos trabalhadores envolvidos no processo de trabalho da enfermagem em saúde coletiva. Nessa etapa, foram empregadas as técnicas de grupo focal e a entrevista semi-estruturada, perfazendo, nos 15 cenários, 90 grupos focais, contando com a participação de 720 componentes da equipe de enfermagem – enfermeiros, técnicos de enfermagem, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários.
As informações obtidas, na segunda etapa do Projeto CIPESC, foram submetidas à análise qualitativa, visando a dois eixos de resultados: análise processual para a caracterização do processo de trabalho em saúde coletiva; análise semântica, buscando-se contribuir para a produção de uma nomenclatura de enfermagem em saúde coletiva no Brasil.
Os resultados do Projeto CIPESC foram colocados à disposição pela ABEn Nacional, de núcleos de pesquisa e/ou pesquisadores, para que possam ser utilizados em outras pesquisas, desde que sejam obedecidos alguns critérios, como: garantia do sigilo dos dados, vinculação ao projeto mãe – CIPESC/ ABEn/CIE, vinculação do pesquisador ou grupo de pesquisa, a ABEn e / ou a algum cenário de pesquisa (informações consolidadas com base em SANTOS, NÓBREGA, Rev esc. Enf. USP, v. 38, n. 4, 2004).