O ACOMPANHAMENTO do ADOLESCENTE NO MEIO SOCIAL

Claudia Regina Menezes da Rocha

Refletir acerca da saúde de adolescente, se compreendemos saúde de uma maneira ampliada, significa mapear os espaços onde encontram-se os adolescentes para que possamos alcançá-los. Os serviços de saúde não são, tradicionalmente, espaços onde encontramos os adolescentes majoritariamente, pois neste ciclo da vida não se apresentam questões clínicas num quantitativo que seja expressivo ao ponto de apresentar-se como uma grande demanda de atendimento¹ clínico individual para os serviços de saúde, como ocorre, por exemplo, para crianças e idosos.

O perfil de morbi-mortalidade na adolescência, ou seja, as questões que afligem à saúde adolescente com o efeito de adoecer-lhe ou tirar-lhe a vida, apontam para questões relativas à violência - homicídios, acidentes de trânsito, violência doméstica - doenças sexualmente transmissíveis (DST), uso de drogas, por exemplo. Estas questões relacionam-se com o processo da adolescência em nossa sociedade.

Afetam ainda a saúde do adolescente questões relativas ao contexto social de nosso país. No que tange à adolescência, podemos perceber os altos índices de evasão escolar e a maciça e precoce presença no mundo do trabalho, especialmente no mercado de trabalho informal, que não garante as cláusulas de proteção ao desenvolvimento físico e intelectual do adolescente previstas em lei. Além de estarem inseridos numa sociedade de crescentes índices de violência e pauperização, muitos adolescentes estão "abandonados" no espaço público - a rua.

Este quadro se configura como uma demanda para o Estado e, particularmente para o setor saúde, e nos exige refletir sobre que tipo de assistência teremos que construir para respondermos às questões da adolescência que se apresentam.

Desta forma, entendemos que o trabalho com adolescentes aponta para uma perspectiva de ações para além dos muros dos serviços de saúde, da forma como hoje estão organizados para prestar assistência, ou seja, numa abordagem que ainda privilegia o atendimento clínico, curativo e individual, mas alcançando-os em espaços que freqüentam ou estão inseridos cotidianamente.

Neste sentido, a promoção de saúde se coloca como recorde de trabalho para o desenvolvimento de capacidades pessoais e da coletividade para a elaboração de políticas públicas saudáveis, para a criação de ambientes favoráveis à saúde, para o reforço da ação comunitária e para a reorientação do sistema de saúde (CARTA DE OTAWA, 1986).

processo de trabalho pautado na perspectiva da Educação Popular Saúde² nos coloca a discussão das questões centradas na realidade que se impõe a partir do contexto sócio-cultural da população, da análise concreta dos limites, de construção e reconstrução de possibilidades e alternativas coletivas e de troca de experiências individuais.

Alcançar o adolescente em seus espaços de convivência e inserção significa atingir o meio social em que vive e na diversidade em que se apresenta, como por exemplo a família em seu eminente caráter de formação, a escola como um espaço de socialização e formação, os espaços de trabalho e preparação profissional, até mesmo a rua como espaço de moradia. Significa ainda implementar ações num contexto de exclusão social e, portanto, de necessidade de promoção da cidadania.

Há a clara necessidade de configuração de uma política para a juventude em nosso país, que seja organizada e avaliada intersetorialmente e implementada interdisciplinarmente, dado o caráter multidimensional que é intrínseco à adolescência e às suas necessidades de suporte social para desenvolver-se.

Em nível local faz-se necessária a articulação com outros setores das políticas públicas como, por exemplo, instituições de educação, de trabalho, de justiça e, também, com órgãos comunitários (centros comunitários e associações de moradores). No setor saúde é importante a formação de uma rede de referência e contra-referência entre instituições dos três níveis de atenção à saúde: Primário, Secundário e Terciário. Desta forma, apontamos a necessidade de um trabalho que contemple o fomento, o apoio, a integração e a dinamização de uma rede de referência em prol da adolescência em nível local.

É indispensável vislumbrar o papel dos profissionais de saúde neste contexto, de forma que as práticas de educação em saúde demarquem e enfatizem novos desafios, (re)postos não apenas pela estrutura social em nível macro, mas enfatizando o micro, a dinâmica da comunidade, da família e do espaço escolar, privilegiando os vários atores sociais e propondo, assim, trabalhos pautados na realidade social, que enfoquem a cultura popular como (...) um conhecimento acumulado e sistematizado que interpreta e explica a realidade (MARTINS apud VALLA, 2000, p. 30).

Para a construção de práticas educativas que considerem aspectos culturais, subjetivos e objetivos é fundamental considerar que os adolescentes estão inseridos em uma dinâmica em que múltiplos fatores interagem. Realizar ponderações e dar novos direcionamentos a essas práticas educativas em saúde é contribuir, realmente, para o resgate da cidadania dos jovens, para sua emancipação. Não podemos trabalhar apenas sob um enfoque técnico, cabe-nos vinculá-lo às histórias de vida, valores e cultura.

A Enfermagem, como prática social, integra-se às práticas dos demais trabalhadores em saúde, enquanto um coletivo que responde pela produção de serviços de saúde, campo que vem sendo desafiado à construção de um novo modelo. A enfermagem tem a necessidade de se colocar diante da construção de um trabalho interdisciplinar, contribuindo com sua especificidade.

Assim, a Enfermagem vem construindo ligações, articulações permanentes com a população e com os demais profissionais (SENA-CHOMPRÉ & EGRY, 1998), potencializando as perspectivas de ações transformadoras no campo da saúde e da educação.

Entendemos, portanto, o meio social como locus também privilegiado do trabalho com adolescentes. Neste capítulo faz-se menção à família, à escola e à rua, como espaços de inserção do adolescente, estratégicos para o trabalho no campo da sua saúde, na medida em que se valoriza os grupos de convivência, a expressividade do contingente de adolescentes no espaço da rua, além da comunidade.

Objetivos:

  • Contribuir, junto ao adolescente, à família, à comunidade e às instituições, com a discussão sobre adolescência e cidadania e suas respectivas participações nesta construção;
  • Promover, oportunizar e participar, nos diversos espaços do meio social, a/na implementação de ações que visem trabalhar com o adolescente em seu processo de adolescer.
  • Tecnologias para o trabalho da enfermagem, levando em consideração medidas abrangentes, de caráter individual e coletivo em torno:
  • da oferta de apoio social, articulada a outros setores de políticas públicas e comunidade;
  • do gerenciamento dos serviços de saúde e de participações favoráveis;
  • de práticas educativas e de comunicação em saúde;
  • de acolhimento do adolescente e de suas necessidades e demandas;
  • de acompanhamento físico-emocional;
  • de suporte familiar.

As indicações apresentadas servem como guia geral para a prática junto a adolescentes em seu meio social, a ser adaptado de acordo com o contexto, necessidades, possibilidades e dinâmicas locais.

 

Referências Bibliográficas

CARTA de Otawa. Disponível em: http://www.saude.gov.br/programas/promocao/otawa.htm Acesso em: maio 2000.

SENA-CHOMPRÉ, R. R.; EGRY, E. Y. A enfermagem nos projetos UNI: contribuição para um novo projeto político para a enfermagem brasileira. São Paulo: HUCITEC, 1998. 189 p.

VALLA, V. V. (Org). Saúde e educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

 

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