ADOLESCÊNCIA E CONSUMO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS:
Riscos e reflexos para a vida futura

Silvana Maria Pereira

Semanticamente, a definição de droga é:

"1. Qualquer substância ou ingrediente que se usa em farmácia, em tinturaria, etc. 2. Medicamento. 3. Medicamento ou substância entorpecente, alucinógena, excitante, etc., ingeridos, em geral, com o fito de alterar transitoriamente a personalidade. 4. Coisa enfadonha, desagradável."1 .

No senso comum, utiliza-se o termo droga geralmente por referência às drogas ilícitas, dentre as quais a maconha, o crack e a cocaína, o que exclui dessa classificação, o tabaco e o álcool. Estas últimas, em decorrência de sua aceitação social e consumo pelos adultos têm permissividade entre a sociedade em geral, e só mais recentemente algumas medidas relacionadas à propaganda dessas drogas têm tido algum tipo de controle.

Vários artigos publicados recentemente têm utilizado o termo substâncias psicoativas para determinar o conjunto de drogas, medicamentos ou toxinas cujo consumo podem representar agravos à saúde. Essas substâncias "são agrupadas em 11 classes: álcool, anfetaminas ou simpaticomiméticos de ação similar; cafeína; canabinóides; cocaína; alucinógenos; inalantes; nicotina; opióides; fenciclidina2; sedativos; hipnóticos ou ansiolíticos" 3.

Há dois tipos de avaliações que podem ser realizadas com jovens que mantiveram/mantém contato com essas substâncias. A primeira, subdivide esses adolescentes em cinco grupos: o que nunca utilizou; o que experimenta sem riscos; o que experimenta com fatores de risco; o que abusa; o que é dependente.

Em função disso, a segunda avaliação trata de diferenciar o que é uso, abuso e dependência. O uso ou experimentação de psicoativos ocorre na freqüência de até cinco vezes na vida (uso na vida) e, portanto, não apresenta conseqüências nas diversas dimensões da vida do indivíduo. O uso freqüente é considerado quando acontece mais de seis vezes no mês. O abuso pode acontecer em pessoas que recém iniciaram o seu uso com repercussões a longo prazo. O abuso pode evoluir para a dependência. Para identificar se ocorre a dependência, deve-se avaliar as repercussões do consumo na qualidade de vida dos adolescentes. Há sete itens que são utilizados como critérios de avaliação; a presença de três ou mais destes, num período de doze meses, caracteriza a situação de dependência. São eles:

  1. compulsão pelo uso;
  2. consciência da compulsão;
  3. consumo além do pretendido;
  4. tentativas sem sucesso para reduzir a quantidade de consumo;
  5. diminuição do tempo dedicado ao lazer, trabalho ou escola para obter ou consumir psicoativos;
  6. consumo para aliviar abstinência;
  7. necessidade de aumentar as doses para obter o mesmo efeito.

Em qualquer das situações de uso, abuso ou dependência, a intoxicação pode acontecer em função da dose. Quando acontece a diminuição da substância no sistema nervoso central, ocorre a abstinência.

Além disso, as substâncias psicoativas podem ser analisadas sob três aspectos: o legal, que define quais são as lícitas e as ilícitas; o moral, relacionada à aceitação na sociedade; o científico, determinado pelo quadro epidemiológico do problema.

O tabaco e o álcool só podem ser vendidos a maiores de 18 anos, mas o seu consumo acontece por menores, muitas vezes acompanhados dos pais, caracterizando a sua permissão moral. De acordo com o quadro epidemiológico, as substâncias que estão dentre as mais consumidas são as consideradas lícitas: o álcool; o tabaco; os ansiolíticos (tranqüilizantes, calmantes) e as anfetaminas (anorexígenos), que podem ser vendidos com receita médica; os inalantes (cola de sapateiro, éter, acetona, cheirinho da loló), que comercialmente têm um uso devido. O que se pode apreender dessa situação: as leis não são cumpridas e não há controle na venda de tabaco, álcool, medicamentos e inalantes. Dentre as ilícitas, a maconha é a mais consumida, mas está atrás de todas as lícitas.

A abordagem sobre o consumo de substâncias psicoativas entre adolescentes e adulto jovens, na sociedade brasileira, deve estar associada a outros três fenômenos, de forma cuidadosa e não reducionista, que são: as mortes associadas ao processo de violência urbana; a epidemia pelo HIV/aids neste grupo populacional; outros agravos à sua saúde física e mental que definem padrões de morbimortalidade.

Percebe-se que, em diferentes momentos históricos, em diferentes culturas e espaços geográficos, algumas substâncias proscritas em algumas situações, como o café, o chocolate, o rapé, a cocaína, as bebidas alcoólicas, a maconha e o haxixe, são utilizadas de forma permitida em outras. Alguns autores4 consideram que a distinção entre substâncias lícitas e ilícitas não está relacionada aos efeitos sobre à saúde, pois ambas são prejudiciais. Isso ocorre por razões políticas e econômicas históricas, visto que o álcool e o tabaco eram utilizadas pelos colonizadores, e o ópio, a coca e a maconha eram utilizados pelos colonizados. A proibição então, foi decorrente de uma relação de poder do colonizador sobre o colonizado.

Na atualidade, há um intenso conteúdo emocional e apelo na mídia que levam a incoerências, como à falta de controle sobre a venda de solventes orgânicos, dificuldades na regulamentação da propaganda de substâncias psicoativas de maior circulação social e, inclusive, de maior relevância no âmbito da saúde pública, como é o caso do tabaco e do álcool. Ressaltam-se a ênfase à lição moral e pânico com que a mídia aborda o consumo das drogas ilícitas e a sua omissão quanto aos danos relacionados ao consumo de álcool, tabaco, medicamentos e solventes5.

A classificação e hierarquização dos danos decorrentes do consumo das substâncias psicoativas deve levar em conta dois aspectos. Primeiramente que, no decorrer da história, as sociedades não dispensaram os psicoativos, o que leva a crer que no futuro também não o farão; segundo, o que Bastos & Carlini-Cotrim (1998), recordando Freud, afirmam que no lidar com a infelicidade, a forma mais acessível e disponível para aliviar o mal-estar são os meio químicos.

Assim, essa hierarquização pode contribuir para determinar as medidas que podem ser adotadas para diminuir os danos, de forma ética, exeqüível e aceitável.

Vogt & Scheerer, citados por Bastos & Carlini-Cotrim (op. cit., p. 647), classifica os danos decorrentes deste consumo como: ameaças à preservação da vida; os danos orgânicos diretos; os danos decorrentes da dependência; danos psíquicos diversos; danos determinados pela via de consumo; danos decorrentes da condição em que acontece o consumo. Vale ressaltar que algumas mortes acontecem devido aos efeitos adversos de substâncias que são adicionadas para "render" mais, como é o caso do ácido bórico, do pó de vidro ou talco.

Os referidos autores, ao discorrerem sobre a questão do consumo, sugerem que o consumo de drogas entre estudantes não está determinado apenas por uma questão de mercado, cuja intervenção passaria pela repressão do comércio ilícito. Há uma lógica social para este consumo, que não é um "flagelo" a atingir qualquer jovem, considerados como ingênuos e sem capacidade de escolhas. A proporção de usuários é maior em jovens que vivem situações de violência em casa, que se encontram mais defasados nos estudos e assumem o trabalho mais precocemente.

Ao se tratar de menores em situação de rua, estudos recentes referem um consumo intenso e freqüente de solventes e maconha, mas também incluem tabaco, álcool e cocaína. Este fato é agravado por condições biológicas, relacionadas à incidência de desnutrição, doenças sexualmente transmissíveis, verminoses, escabiose, pediculose; também por condições psicossociais relacionadas à exposição à violência policial e desagregação familiar.

O consumo de solventes orgânicos (acetona, éter, cola de sapateiro) destaca-se dentre as substâncias psicoativas consumidas, não apenas entre menores em situação de rua, mas também entre estudantes de periferia, secundaristas e universitários. Como a venda é lícita, o Estado tem um papel fundamental no controle da venda, bem como deve dar visibilidade social para o problema. Atualmente, em alguns países acontecem programas comunitários ou governamentais para prevenção das substâncias inalantes, financiados pelos próprios produtores.

Quanto ao consumo de bebidas alcoólicas entre jovens, espelha o que é o processo social mais geral, visto que desde 1995 vem crescendo, ou seja, "nunca se consumiu de forma tão intensa bebidas alcoólicas no país" (Bastos & Carlini-Cotrim, 1998). Este consumo entre jovens é crescente não apenas no que diz respeito à experimentação, mas também quanto ao seu uso recente, e há evidências de que as jovens do sexo feminino e as crianças entre 10 e 12 anos são as mais afetadas por este incremento.

O crack, que é um derivado da cocaína, teve seu consumo crescente na década de 80, nos Estados Unidos, e estava associado a populações pobres e minorias étnicas, devido seu preço barato e ação rápida. Com o efeito da "fissura" por uma nova dose, combinou-se a uma rede de interações sociais e sexuais caracterizada pela rotatividade e troca do produto por sexo rápido e sem proteção. Por esta razão, o seu consumo esteve associado a uma epidemia de sífilis e à intensificação da transmissão sexual do HIV.

No Brasil, seu consumo foi introduzido na década de 90 e esteve regionalizado no município de São Paulo, estendendo-se para todo o estado e, mais recentemente, para outras regiões do país. A extensão da introdução da heroína ainda gera dúvidas.

Os padrões de oferta e consumo de substância psicoativas nos países desenvolvidos têm sido alterados com o processo de globalização dos padrões de oferta e o Brasil está inserido nos circuitos do tráfico internacional, inclusive nas recentes conexões entre os produtores latino-americanos de cocaína e seus similares e os produtores de heroína e outros opiáceos do sudeste da Ásia.

A "cultura rave" vem ampliando a oferta e o uso do ecstasy6, principalmente nas grandes cidades do sudeste e do sul, diminuindo o intervalo entre a difusão de uma nova droga no mercado internacional e sua introdução no mercado brasileiro. Diferentemente do crack, o consumo do ecstasy ocorre em classes mais abastadas economicamente. Seguindo esta tendência, a perspectiva para o futuro é a ocorrência de problemas característicos de países em desenvolvimento, como o consumo de solventes orgânicos e de psicofármacos adquiridos sem prescrição associado ao padrão de consumo que vem se consolidando nos países desenvolvidos.

Os profissionais de saúde, em especial da enfermagem, têm um papel importante na prevenção e identificação de fatores de risco associados ao consumo de substâncias psicoativas, pois as conseqüências podem ser graves e requer encaminhamentos para tratamento de abuso e dependência. A intervenção em casos leves, de uso e experimentação podem alterar o prognóstico positivamente.

As conseqüências do consumo de substância psicoativos podem ser subdividas de acordo com o fenômeno a que estão relacionados.

O primeiro deles diz respeito à violência. A inter-relação entre esta e o tráfico de drogas é evidente e grave, afetando a extremidade mais frágil da cadeia de distribuição e venda. O perfil da população atingida inclui jovens, em sua maioria do sexo masculino, de raça negra ou mestiços, de estratos sociais mais pobres. A tolerância relativa à comercialização de bebidas alcoólicas agrava a situação, pois o seu consumo está associado à situações violentas, incluindo homicídios.7

Em segundo lugar, podemos identificar a disseminação do HIV. A sua transmissão por via sangüínea, entre usuários de drogas injetáveis, já é de conhecimento da sociedade e tem sido amplamente abordada, inclusive com ações para redução de danos como a política de distribuição de seringas descartáveis para essa população específica, ainda com muita polêmica sobre tal fato. Mas há uma complexa relação entre consumo de substâncias psicoativas e prática de sexo desprotegido, que merece atenção especial nas ações de prevenção e deve ser abordada entre os jovens, devido à magnitude da epidemia no país.

Outra questão diz respeito ao consumo de tabaco e sua correlação com a incidência de câncer e doenças cardiorrespiratórias. Pode ser considerado um dano fundamental, apesar de inquantificável, pois essas patologias têm uma história natural lenta e vários fatores podem estar relacionados entre lesão celular e as manifestações clínicas. A poluição ambiental pelo tabaco estabelece uma nova categoria, que são os fumantes passivos. Em crianças e adolescentes, o tabaco pode ocasionar uma maior incidência de asma, bronquite e rinite alérgicas, sinusite, otite e pneumonia bacterianas.8 Atualmente, é de conhecimento que a fumaça do tabaco contém mais de 4700 substâncias tóxicas, algumas potencialmente carcinogências. Dentre os efeitos da nicotina podemos citar a contração dos vasos sangüíneos, aumento da freqüência cardíaca, favorecimento da arteriosclerose, e a dependência pode acontecer devido a um mecanismo neurotrófico semelhante ao da cocaína. Goldfarb (1999) cita que a experimentação acontece precocemente e em torno de 90% de adultos dependentes de nicotina, tal situação aconteceu antes dos 19 anos de idade. Não há dúvida da relevância de campanhas educativas continuadas, objetivando reduzir o consumo de tabaco, pois é importante mostrar às crianças que fumar é uma doença caracterizada pela dependência e, não apenas um ato anti-social. Além de medidas educativas, podem ser adotadas também medidas legislativas para regulamentar a venda, restrição em locais coletivos e proibição de publicidade direta; e medidas econômicas para aumentar os preços dos derivados do tabaco.

Um aspecto que têm a sua visibilidade afetada pela epidemia do HIV, e que merece atenção devido à gravidade e extensão do problema, é o caso das hepatites secundárias ao consumo de substâncias psicoativas. Podem ocorrer como decorrência do efeito tóxico do álcool de forma isolada, associado ao consumo concomitante de cocaína ou outras substâncias ilícitas, por transmissão sexual ou parenteral. As hepatites virais (tipo B ou tipo C) em certas populações de usuários podem levar a comprometimento hepático severo, sendo que a hepatite C está mais associada à transmissão parenteral e a hepatite B à transmissão sexual como sangüínea.

Por último, o consumo abusivo de substâncias psicoativas está relacionado à determinação de acidentes de trânsito, de forma inquestionável, e à ocorrência de envenenamentos acidentais ou auto-inflingidos.

Esse quadro permite vislumbrar a relevância e o significado do consumo de substâncias psicoativas, principalmente em populações mais jovens, e sua conseqüência no que diz respeito aos efeitos secundários e comprometimento da qualidade de vida, quando não da própria vida desses adolescentes. Os desafios que temos pela frente é superar as ações coercitivas e adotar também um conjunto de ações contemplem aspectos educativos, preventivos e terapêuticos.

Na abordagem individual, o profissional precisa desenvolver com o adolescente uma relação baseada na cumplicidade e interatividade, conquistando assim a sua confiança e assegurando o sigilo. Afinal, o adolescente vai assumir que deseja experimentar ou já experimentou algumas dessas substâncias somente se sentir esta confiança no profissional que o está atendendo. A avaliação deve ter por base uma anamnese que contemple informações relativas ao contato, experimentação ou uso freqüente, tipo de substâncias, tratamentos anteriores; identificação de fatores de risco; exame físico completo.

Os fatores de risco podem ser estar relacionados ao ambiente familiar e ao convívio social. De maneira geral, a Organização Mundial de Saúde identifica cinco fatores, a saber: "falta de informação sobre o tema; dificuldade de inserção no ambiente familiar ou no trabalho; insatisfação com a qualidade de vida; problemas de saúde; facilidade de acesso às substâncias."9 No que se refere ao ambiente familiar, podemos citar: caos familiar, com pais abusadores de alguma substância ou com enfermidade mental; ausência de afetividade e carinho na relação familiar; paternidade não participante, em especial com filhos com problemas de conduta; separação dos pais ou mudança. No convívio social, seja com amigos ou na escola, podemos citar: timidez ou agressividade; dificuldades na aprendizagem escolar e nas relações sociais; inserção em grupos que apresentam comportamentos inadequados; percepção de que o consumo de substâncias tem aprovação social.

Em contrapartida, uma família com laços afetivos profundos, cujos pais participam da vida de seus filhos, um bom aproveitamento escolar, a participação em grupos de convívio e adoção de medidas para controle de propaganda e venda de substância psicoativas lícitas e ilícitas podem ter um impacto positivo na vida dos adolescentes, atuando como fatores protetores.

Os pais que percebem o consumo de substâncias de psicoativas pelos seus filhos podem se sentir culpados, incompetentes e confusos sobre que atitude tomar. Esses sentimentos sustentam-se em fatores sociais e culturais como a banalização do uso de algumas substâncias por determinados grupos sociais; a ambigüidade social que criminaliza o uso de algumas substâncias e legaliza outras; argumentos simplistas que reduzem essa questão à saúde física e à área jurídica, desconsiderando os aspectos afetivos e emocionais; informações e posições contraditórias dos profissionais da saúde sobre o uso. As conseqüências desse uso, por parte dos adolescentes, e que merecem atenção dos pais dizem respeito às dificuldades de comunicação e ao distanciamento afetivo que ocorre no âmbito da família, e também à possibilidade da marginalização dessos adolescentes decorrente do uso de substâncias ilícitas¹°.

Apesar de todas as considerações sobre como uma relação familiar conflituosa pode representar um fator de risco para o consumo de substâncias psicoativas, ao se estabelecer uma relação terapêutica com o adolescente, o profissional de saúde deve propor uma aliança com sua família. É importante reforçar a competência, capacidade e potencialidade dessa família para transformar suas relações.

A parceria com a família deve iniciar com a reflexão sobre os sentimentos que podem bloquear esse processo de mudança e deve envolver todos seus membros. Primeiramente, pode existir a mágoa com o comportamento do filho. É importante discutir com os pais, a necessidade de diferenciar o filho, aquele ser que habita em seus corações, do seu comportamento considerado marginal, retomando a comunicação baseada na amorosidade. Outro sentimento que pode aflorar é o medo da perda. A dependência dos filhos em relação aos pais já não existe mais em sua totalidade nesse período da adolescência, e muitas vezes por esse medo de que não aceitem os limites e possam ir embora, perdem sua função protetora ao aceitar as imposições dos filhos. O sentimento de culpa pode levar a uma comunicação baseada nas cobranças e na raiva, que com o tempo pode se disfarçar no cansaço e na desistência de lutar pelo filho.

Após estabelecer essa parceria com a família, o profissional de saúde pode sugerir a possibilidade de se estabelecer uma comunicação emocional, onde os pais expressam seus sentimentos e podem se aproximar através do abraço e da declaração de amor o filho. Muitas vezes, o adolescente confunde o crescimento e a autonomia com o afastamento físico e emocional dos pais, e, para romper com isso, o processo de individuação deve estar associado ao pertencimento à família. Os profissionais podem propor, conforme sugerem Bezerra & Linhares (1999), que família assuma como suas decisões,as seguintes declarações: amor incondicional o filho; intolerância às drogas; responsabilidade; não compactuar segredos no que se refere ao uso de drogas. Muitos são os desafios, mas se a família sentir-se fortalecida conseguirá construir seu próprio caminho.

Princípios a serem considerados na atenção à saúde de adolescentes em risco e vulnerabilidade para consumo de substâncias psicoativas

Adolescente - Família - Escola - Tecnologias em Saúde e Enfermagem

Objetivos

  1. Promover e difundir informações, bem como discutir o impacto do consumo substâncias psicoativas, como agravo à saúde dos adolescentes, não apenas na perspectiva do dano direto, mas de seus efeitos como desencadeadores de comportamentos de risco para outros agravos;
  2. Estimular ações que valorizem a auto-estima e o auto-cuidado, e valores que promovam a preservação da vida, com qualidade e satisfação.

Apoio Social

  • Incentivar e integrar a organização de uma Rede Interinstitucional para Prevenção e Redução de Danos decorrentes do consumo substâncias psicoativas, com equipe multiprofissional;
  • Identificar e buscar parceria na comunidade para desenvolver ações de prevenção ao consumo de substâncias psicoativas;
  • Advogar em prol de serviços de apoio social para adolescentes dependentes de substâncias psicoativas e suas famílias.
  • Práticas gerenciais e de participação favoráveis
  • Capacitar os profissionais de saúde e de enfermagem sobre os efeitos das substâncias psicoativas, os danos associados ao seu consumo, a diferenciação entre uso, abuso e dependência;
  • Identificar serviços de referência para encaminhamento de adolescentes usuários e dependentes de substâncias psicoativas e suas famílias;
  • Capacitar profissionais de saúde e enfermagem que trabalham nos serviços de emergência para identificar situações de abuso de substâncias psicoativas em adolescentes;
  • Promover ações integradas com os agentes comunitários de saúde para fornecer informações às famílias no seu ambiente social e cultural;
  • Estabelecer parceria com a escola para desenvolver ações educativas voltadas diretamente às crianças e adolescentes.

Suporte familiar

  • Incentivar o processo de comunicação familiar com base na amorosidade;
  • Valorizar a participação da família no processo de tratamento de dependência de substâncias psicoativas;
  • Estimular os pais que consomem tabaco a suspender o seu uso para reduzir a exposição passiva dos demais membros da família;
  • Orientar adolescentes grávidas e seus familiares sobre a exposição do bebê desde a sua vida intra-uterina, aos efeitos de substâncias psicoativas;
  • Resgatar a auto-estima da família e ressaltar sua capacidade para ajudar o adolescente usuário, abusador ou dependente de substância psicoativa.

Acolhimento dos sujeitos e de suas necessidade e demandas:

  • Acolher o adolescente através de uma atitude não julgadora ou preconceituosa;
  • Garantir privacidade na assistência;
  • Dar atenção à expressão de seus sentimentos e experiências.
  • Práticas educativas e de comunicação em saúde
  • Promover a capacitação de profissionais de saúde, educação, lideranças comunitárias, conselheiros tutelares acerca da prevenção e manejo de situações de consumo de psicoativas;
  • Divulgar a inter-relação entre consumo de substâncias psicoativas e outros agravos à saúde dos adolescentes;
  • Divulgar fatores de risco e fatores protetores relacionados ao consumo de substâncias psicoativas, para identificar adolescentes vulneráveis;
  • Promover campanhas de conscientização sobre os efeitos do tabaco, adotando o calendário do Ministério da Saúde, que ocorre nos idas 31 de maio - Dia Mundial sem Tabaco, e dia 29 de agosto - Dia Nacional de Combate ao Fumo;
  • Promover palestras e debates sobre o tema para educadores e outros profissionais que trabalham com adolescentes;
  • Utilizar os diversos meios de comunicação disponíveis em cada comunidade para divulgar informações sobre o tema e serviços disponíveis para atendimento.

Acompanhamento físico-emocional

  • Prestar assistência de qualidade os adolescentes que consomem substâncias psicoativas;
  • Identificar situações de uso e experimentação e atuar para evitar a dependência;
  • Realizar consulta de enfermagem e identificar através da anamnese e exame físico possíveis evidências de consumo de substâncias psicoativas;
  • Atentar para as seguintes alterações:
    • "Sinais: emagrecimento, hipertensão, olhos vermelhos, irritação nasal, resfriados constantes ou alergias e sibilos, rouquidão e tosse crônica, hemoptise, dor torácica e vestígios de picada de agulha.
    • Comportamento: desinibição, letargia, hiperatividade ou agitação, sonolência ou hipervigilância, problemas com os professores, falta às aulas, suspensão, repetência e expulsão escolares; problemas na família, envolvimento em episódios de violência; afogamentos e acidentes de trânsito principalmente quando há traumatismos.
    • Cognição: alteração da capacidade de concentração e atenção, redução no desempenho acadêmico, repetência escolar; alteração na memória imediata e distúrbio no conteúdo do pensamento com idéias delirantes de cunho persecutório.
    • Humor: oscilações de humor (depressão e/ou euforia), reação de pânico.
    • Hábitos pessoais: uso de colírios; alterações no padrão de sono e apetite; descuido da higiene; desinteresse pela prática de esportes e por amigos antigos; apatia; mudanças no tipo de vestuário e nas preferências musicais."


1 - Ferreira, 1995, p. 231

2 - Fenciclidina é um anestésico geral, introduzido nos Estados Unidos em 1963 e retirado dois anos após, pode ser utilizado por via intravenosa, nasal e respiratória. O aumento da dose pode ocasionar alucinações, comportamentos agressivos, surtos psicóticos, ataxia, catatonia, arritmias e convulsões, seguido de anestesia, coma e morte (Fuchs & Wannmacher, 1998)

3 - Albernaz & Passos, 2001, p.238

 

Referências Bibliográficas

ALBERNAZ, Antonio Luiz Gonçalves; PASSOS, Sônia Regina Lambert. Uso de substâncias psicoativas. In: COUTINHO, Maria de Fátima Goulart; BARROS, Ricardo do Rêgo. Adolescência: uma abordagem prática. São Paulo: Atheneu, 2001. p. 237-250.

BASTOS, Francisco Inácio; CARLINI-COTRIM. O consumo de substâncias psicoativas entre jovens brasileiros: dados, danos & algumas propostas. In: Comissão Nacional de População e Desenvolvimento. Jovens acontecendo na trilha das políticas públicas. Brasília: CNPD, 1998. p. 645-669.

BEZERRA, Valdi Cravero; LINHARES, Ana Carolina Bessa. A família, o adolescente e o uso de drogas. In: BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos juventude, saúde e desenvolvimento. Brasília: Ministério da Saúde, v. 1, p.184-196, 1999.

DOLTO, Françoise. A cada uno su droga: falsos paraísos y seudogrupos. In: ________. La causa de los adolescentes: el verdadero lenguaje para dialogar con los jóvenes. Barcelona : Seix Barral, 1990. p. 127-142.

DORLAND: dicionário médico. 25. ed. São Paulo: Roca, 1997.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio básico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Folha de São Paulo, 1995.

FUCHS, Flávio Danni; WANNMACHER, Lenita. Farmacologia clínica: fundamentos da terapêutica racional. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.

GOLDFARB, Luisa da Costa e Silva. Tabagismo: estudos em adolescentes e jovens. In: BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos juventude, saúde e desenvolvimento. Brasília: Ministério da Saúde, v. 1, p.162-172, 1999.

MADRIGAL, Enrique. Patrones de consumo y dependencia del alcohol y de sustancias psicoativas en la mujer. In: ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD. Genero, mujer y salud en las Americas. Washington: OPS, 1997. p.163-177. (Publicación científica, n. 541)

 

Associação Brasileira de Enfermagem - ABEn Nacional
SGAN 603, Conjunto "B". CEP: 70830-030, Brasília-DF
E-mail: aben@abennacional.org.br
Fone: (61) 3226-0653